Flores para o silêncio
- Palavras Mágicas Editora
- 1 de nov. de 2025
- 2 min de leitura

Quando criança, havia uma época do ano que me deixava inquieta. Bastava ouvir mamãe dizer que iríamos ao cemitério no Dia dos Mortos para que um calafrio me percorresse a espinha. Eu não entendia bem por que precisávamos ir até lá, muito menos o motivo de levar flores. Para mim, flores pertenciam aos vivos, não a túmulos silenciosos.
Mamãe, com sua voz firme, explicava que era um gesto de carinho: deixar flores, acender velas, limpar os jazigos, fazer orações. Dizia que era uma forma de lembrar com amor aqueles que já não estavam entre nós. Eu a acompanhava, obediente, mas dentro de mim havia dúvidas: seria realmente necessário? Ou os mortos estariam ali, observando quem se lembrava deles?
Enquanto os adultos rezavam, eu permanecia de pé, inquieta, repetindo em voz baixa uma dezena de Pais-nossos, temendo que, se não rezasse o suficiente, algo de ruim pudesse me acontecer. Era como se o silêncio das sepulturas fosse capaz de ouvir minha distração, e eu não ousava arriscar.
Hoje, quando recordo esses momentos, percebo o cuidado de mamãe em cada gesto simples. O ritual que me assustava era, na verdade, uma demonstração de ternura e respeito. Eu, criança, via o cemitério como um lugar de sombras; ela, como um espaço de memória e de amor.
E talvez, no fundo, aquelas orações ditas em sussurros tenham sido minha forma de aprender, ainda cedo, que até no silêncio da morte cabe um gesto de vida.

O texto Flores para o silêncio publicado no blog da Editora Palavras Mágicas é uma reflexão sensível sobre o Dia dos Mortos e o poder das lembranças. A autora transforma o medo infantil em compreensão e ternura, mostrando que honrar quem partiu é uma forma de manter o amor vivo. Essa narrativa traduz o que mais valorizamos: histórias que tocam, inspiram e nos lembram que até no silêncio da morte cabe um gesto de vida. 🌷
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