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Flores para o silêncio

Flores para o silêncio


Quando criança, havia uma época do ano que me deixava inquieta. Bastava ouvir mamãe dizer que iríamos ao cemitério no Dia dos Mortos para que um calafrio me percorresse a espinha. Eu não entendia bem por que precisávamos ir até lá, muito menos o motivo de levar flores. Para mim, flores pertenciam aos vivos, não a túmulos silenciosos.


Mamãe, com sua voz firme, explicava que era um gesto de carinho: deixar flores, acender velas, limpar os jazigos, fazer orações. Dizia que era uma forma de lembrar com amor aqueles que já não estavam entre nós. Eu a acompanhava, obediente, mas dentro de mim havia dúvidas: seria realmente necessário? Ou os mortos estariam ali, observando quem se lembrava deles?


Enquanto os adultos rezavam, eu permanecia de pé, inquieta, repetindo em voz baixa uma dezena de Pais-nossos, temendo que, se não rezasse o suficiente, algo de ruim pudesse me acontecer. Era como se o silêncio das sepulturas fosse capaz de ouvir minha distração, e eu não ousava arriscar.


Hoje, quando recordo esses momentos, percebo o cuidado de mamãe em cada gesto simples. O ritual que me assustava era, na verdade, uma demonstração de ternura e respeito. Eu, criança, via o cemitério como um lugar de sombras; ela, como um espaço de memória e de amor.


E talvez, no fundo, aquelas orações ditas em sussurros tenham sido minha forma de aprender, ainda cedo, que até no silêncio da morte cabe um gesto de vida.



Flores para o silêncio

O texto Flores para o silêncio publicado no blog da Editora Palavras Mágicas é uma reflexão sensível sobre o Dia dos Mortos e o poder das lembranças. A autora transforma o medo infantil em compreensão e ternura, mostrando que honrar quem partiu é uma forma de manter o amor vivo. Essa narrativa traduz o que mais valorizamos: histórias que tocam, inspiram e nos lembram que até no silêncio da morte cabe um gesto de vida. 🌷




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Flores para o silêncio

 
 
 

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